sexta-feira, 31 de março de 2017

Um desabafo do meu eu-coletivo

Estamos todos carentes de amizades fiéis, recíprocas, consolidadas na caridade e que nos levem a crescer intelectualmente, emocionalmente e psicologicamente. Nos últimos anos tenho presenciado e vivido relações interpessoais cada vez mais desfiguradas, confusas e/o abstratas. Isso tem provocado minha impaciência, meu desamor e minha intolerância frente aos meus semelhantes.
O papa Francisco, na Exortação apostólica Amoris Laetitia – sobre o amor na família – nos lembra que “ter paciência não é deixar que nos maltratem permanentemente, nem tolerar  agressões físicas, ou permitir que nos tratem como objetos” (AL nº 92). No entanto, meu coração vai além do que indica o Santo Padre. Entrego-me, pois, aos sentimentos de ira e de liberação de impulsos de maneira indiscriminada, tornando as relações que não considero verdadeiras, honestas e sinceras num campo bélico de péssimas emoções. Como não ser assim? Ainda não sei!
Tem sido uma constante, nos últimos tempos, a minha percepção – talvez exagerada e cristalizada – de atitudes de alguns que me cercam, indicando claramente um desgosto ou infelicidade pelo bem que acontece na vida de outras pessoas. Essa inveja eu engessa o coração e faz insensível à alegria pelo bem-estar do próximo, tem inquietado minh’alma. Todos têm direito à felicidade. Essa é uma lei cósmica.  Recentemente partiram da minha vida (mesmo estando vivas), pessoas que enxergavam os acontecimentos e fatos cotidianos a partir dos seus umbigos. Falavam excessivamente de si mesmas, analisava o comportamento dos semelhantes por uma ótica duramente egocêntrica. Lobrigavam tudo a partir de si; recusavam-se a sair do centro e andar pelas periferias existenciais dos mais próximos – dos que diziam “amar” – inclusive a mim (incluso nos amigos periféricos). Você também sente-se assim?
Tais pessoas são incapazes de abdicar das próprias qualidades, dos prazeres egoístas e hedonistas, pois consideram-se num patamar de beleza, intelectualidade e perspicácia superior aos demais seres da sua comunidade.
Em suma, são pessoas que elevaram sua arrogância a níveis insuportáveis. Recusam a cada instante de curar seu orgulho, sua prepotência e sua pernosticidade. É inegável que esses seres “do mal” só se aproximam das pessoas para que (e quando) estas satisfaçam suas necessidades. E sem pudor nenhum, descartam os seres “usados para seu proveito próprio” como se fossem objetos obsoletos. Para auxiliar na reflexão, trago um texto belíssimo de Mario de Andrade, que diz: "Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora. Tenho muito mais passado do que futuro. [...] Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte. Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha. Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos. Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral. ‘As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos’. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa… [...] O essencial faz a vida valer a pena. E para mim, basta o essencial!" (GIMENES, s/d, s/p). GRIFOS MEUS


REFERÊNCIAS

AL. AMORIS LÆTITIA. Exortação apostólica pós-sinodal do Papa Francisco sobre o amor na família. Disponível em <http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html>. Acesso em 31.03.2017.

GIMENES, Nicholas. O Essencial - Mário de Andrade (Palavra Aguda). Disponível em < http://www.nicholasgimenes.com.br/2010/09/o-essencial-mario-de-andrade-palavra.html>. Acesso em 31.03.2017.


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