segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

CATEQUISTA: CONSAGRAÇÃO PERPÉRTUA AO AMOR

 

Antes do seu amor chegar

Um outro amor já me encontrou

E me envolveu com tanta luz

Que já não posso me esquecer

(Marcas do Eterno[1] – Pe. Fábio de Melo)

 


Deus é amor e devemos nos consagrar a Ele, com temor. Não pelo medo, mas pelo profundo respeito, pela santa reverência e união íntima. Temor, é antes de tudo, DOM do Espírito Santo. Não perpassa por servidão aniquilante, mas pela filialidade. Esse temor nasce da contemplação da majestade, santidade e amor incondicional de Deus. Diante da grandeza divina, o indivíduo sente uma humildade profunda e uma reverência que o impede de agir de qualquer forma que possa desonrar a Deus.

O temor de Deus age como um escudo, movendo a pessoa a dizer "não" às tentações e a fugir de tudo o que possa separá-la de Deus. Não é motivado pelo medo do inferno, mas pelo desejo de permanecer na graça e na presença de Deus.

De acordo com o Catecismo da Igreja Católica (nº 1830-31), sete são os dons do Espírito Santo. Estes dons admiráveis que, na Sagrada Escritura, foram descritos pelo Profeta Isaías (11,2) são: sabedoria, entendimento, conselho, fortaleza, ciência, piedade e temor de Deus. São estes dons infusos que recebemos em plenitude nos sacramentos do batismo e da crisma, que sustentam a vida moral dos cristãos, por meio de disposições permanentes, que tornam o homem dócil aos impulsos do Espírito Santo. Os dons do Espírito Santo, que também são chamados de dons de santificação, são infusos em nossa alma por Deus, e nela habita para nos tornar dóceis à ação de Deus, no caminho da perfeição (SILVA, s/d).

Para os místicos (pessoas de profunda e singular relacionamento com o Sagrado), o temor de Deus é uma virtude essencial e um dom que, longe de oprimir, liberta a alma para amar a Deus de forma mais plena e profunda, culminando na união mística. Abaixo, elenco algumas dessas pessoas e, suscintamente, apresento suas experiências com o Eterno.

   

Santa Maria do Egito

 

Quando jovem, ela era promíscua e gostava de sexo. Mas depois de rejeitar o mundo e passar 47 anos vivendo nua no deserto, essa mulher de pele escura tornou-se uma professora sábia e virtuosa das escrituras cristãs (FERGUSON, 2025).

Santa Maria do Egito, a Penitente, havia encontrado, no deserto com Deus, a paz que o mundo não pode dar (cf. Jo 14, 27). Dali ela seguiria rumo à Jerusalém celeste, sim; rumo à Terra Prometida do Céu, onde não há luto, nem lágrimas, nem dor, nem escuridão. Mas já aqui, através da fé, ela pôde experimentar um prelúdio de tudo isso — e de ter entregado sua vida ao Amor ela não poderia arrepender-se jamais (RICARDO, 2019).



Por diversão e curiosidade fútil, Maria decidiu acompanhar os romeiros que se dirigiam à Terra Santa para a “Festa da Santa Cruz”. Ao chegar à porta da igreja, entretanto, não conseguiu entrar. A multidão passava por ela e ia para o interior do templo sem nenhum problema, mas ela não conseguia pisar no solo sagrado. Uma força invisível a mantinha do lado de fora e, por mais que tentasse, suas pernas não obedeciam a seu comando (AOSSC, 2024). Com a graça do Senhor ela pôde se arrepender e se propor a um caminho de purificação (SHALOM, 2010).

Santa Maria Egipcíaca ensina-nos que a misericórdia alcança a todos que desejam, que todos podemos nos converter e mudar de vida e que a penitência é uma ferramenta essencial para a nossa conversão e Santidade (ALIANÇA DE MISERICÓRDIA, 2024).

 

                                                                                                  Santa Maria Egipcíaca, rogai por nós!

 São Francisco de Assis

 

 Foi na contemplação, na oração e na escuta atenta e silenciosa de nosso Deus, que São Francisco fez a experiência da minoridade de Deus na humanidade. Deus em sua grandeza infinita se fez pequeno, pobre, se esvaziou ao assumir a condição humana em Jesus de Nazaré (SILVA, s/d).

Ele castigava[2] o próprio corpo, acreditando que assim, dominaria as paixões desordenadas, educaria o espírito e purificaria a alma. No entanto, ele termina sua vida, pedindo perdão ao seu corpo, a quem chamava de irmão. Este episódio ocorreu no leito de morte de Francisco.




O Santo de Assis pediu perdão ao seu corpo por tê-lo tratado com excessivo rigor e penitências severas ao longo de sua vida, na busca por uma maior intimidade com Deus e renúncia aos prazeres mundanos.  Durante sua vida, Francisco praticou jejuns rigorosos, usou cilícios e expôs seu corpo a condições extremas como forma de mortificação e para seguir os princípios do Evangelho de pobreza e simplicidade (CFFB, 2020).

Essa atitude, esse pedido de perdão, reflete a profundidade da espiritualidade franciscana, que busca a reconciliação com todas as criaturas e consigo mesmo, vendo a criação inteira como parte da família de Deus, e sobretudo, nos transporta para os braços de um Deus que quer “misericórdia e não sacrifícios” (Os 6, 6; Mt 9, 13 e 12,7).

 São Francisco de Assis, rogai por nós!

 

  Santa Teresinha do Menino Jesus

 

 Teresa de Lisieux, nasceu na França, em 02 de janeiro de 1873. Morreu no dia 30 de setembro de 1897, com apenas 24 anos. Sua vida, apesar de muito sofrida, sempre foi permeada da presença de Deus.

A mística de Teresinha do Menino Jesus, defendia uma abordagem da fé que via Deus nas realidades mais simples e cotidianas da vida. Sua teologia enfatizava o "pequeno caminho" da santidade, que consistia em realizar atos comuns com amor extraordinário (CANÇÃO NOVA, s/d).

Em vez de buscar grandes feitos ou milagres, ela ensinava que a santidade poderia ser alcançada através da fidelidade às pequenas tarefas diárias, deveres do estado de vida e gestos de caridade fraterna, como sorrir para alguém, ajudar em casa ou aceitar pacientemente as imperfeições dos outros. Para ela, esses pequenos sacrifícios e atos de amor eram uma forma de agradar a Deus e viver a santidade no dia a dia.

Essa "teologia do cotidiano" torna sua mensagem acessível a todos, não apenas a religiosos ou ascetas, mostrando que a vida espiritual não precisa ser extraordinária para ser profunda e significativa.

 

Santa Teresinha do Menino Jesus, rogai por nós!

  O que estes e outros místicos nos ensinam é amar e confiar em Deus de modo que a nossa condição de pecadores não permita sucumbir às nossas fraquezas. Dentre os pecados a serem vencidos está o orgulho (a soberba, a vaidade). O orgulho é considerado o mal supremo. Ele é antítese do amor, ele sufoca –o, destrói a caridade. É pelo orgulho o diabo se tornou diabo. A presunção exagerada leva aos outros vícios.

O orgulho pode ser definido como um estado da mente contrário a Deus. Não é o ser rico, se achar bonito ou inteligente que tornam a pessoa orgulhosa, mas em se considerar mais inteligente, mais bonito, mais rico que os outros.

Diante de Deus o orgulhoso se depara com alguém muito superior. Ele que costuma desdenhar as pessoas o fará também com Deus. Quem sempre olha para baixo não pode olhar nada que está acima. Quando dizem que amam a Deus estão adorando um deus imaginário. Ficam imaginando o quanto o seu deus os aprova e os considera melhores que os outros.

Qualquer pessoa pode cair na mesma cilada. Sempre que a nossa vida religiosa nos faz pensar que somos bons ou melhores que os outros, com toda certeza isto não vem de Deus. O sinal contrário diante de Deus é esquecer-se de si mesmo. Como adquirir a humildade? O primeiro passo é reconhecer o próprio orgulho. É um grande passo e nada pode ser feito antes disso. Se a pessoa tiver um contato com Deus, será com certeza, humilde (JÖNCK, 2019).

No fim, é preciso buscar maneiras de encontrar a serenidade e a humildade em meio às nossas frenéticas vidas, de abrir em profundidade nossa cotidianidade para poder nos submergir no ritmo tranquilo de Deus; encontrar-nos com Ele para que seja o centro de nossa vida e caminhar a seu lado.

Oxalá sejamos capazes de captar os detalhes da paisagem de nossa vida para descobrir em tudo as pegadas do Senhor! E, embora vivamos neste mundo onde tudo se move tão rápido, podemos fechar os olhos e sentir que Ele nos conduz pela sua mão (IHU, 2022).

 

  REFERÊNCIAS

 ALIANÇA DE MISERICÓRDIA. Santa Maria Egipcíaca: A misericórdia de Deus é para todos. 2024. Disponível em <https://misericordia.com.br/santa-maria-egipciaca-a-misericordia-de-deus-e-para-todos/>. Acesso em 08.01.2026.

 

AOSSC. Recanto Nossa Senhora de Lourdes. 22 de Abril: Santa Maria Egipcíaca. 2024. Disponível em <https://aossc.org.br/22-de-abril-santa-maria-egipciaca/>. Acesso em 07.01.2026.

 

CANÇÃO NOVA. Santo do Dia. Santa Teresinha do Menino Jesus, doutora da infância espiritual. Disponível em <https://santo.cancaonova.com/santo/santa-teresinha-do-menino-jesus-doutora-da-infancia-espiritual/>. Acesso em 08.01.2026.

 

CFFB. Conferência da Família Franciscana do Brasil. A enfermidade na vida de São Francisco e nos escritos franciscanos. 2020. Disponível em <https://cffb.org.br/a-enfermidade-na-vida-de-sao-francisco-e-nos-escritos-franciscanos-por-frei-francesco>. Acesso em 08.01.2026.

 

FADUL, Sérgio. Santa Maria Egipcíaca, ou Santa Maria do Egito. 2023. Disponível em <https://www.nsdagloria.com.br/single-post/santa-maria-egipc%C3%ADaca-ou-santa-maria-do-egito-1>. Acesso em 08.01.2026.

 

FERGUSON, Donna. A história de Maria do Egito, a santa 'promíscua' que viveu nua no deserto por 47 anos. 2025. Disponível em <https://www.bbc.com/portuguese/articles/cgqv7gq8gl4o>. Acesso em 07.01.2026.

 

IHU. Unisinos. A vida espiritual dos místicos: um caminho para não sucumbir à ansiedade, ao medo e à acídia. 2022. Disponível em <https://ihu.unisinos.br/618055-a-vida-espiritual-dos-misticos-um-caminho-para-nao-sucumbir-a-ansiedade>. Acesso em 08.01.2026.

 

JÖNCK, Dom Wilson Tadeu. Orgulho, o Grande Pecado. 2019. Disponível em <https://www.cnbb.org.br/orgulho-o-grande-pecado/>. Acesso em 07.01.2026.

 

RICARDO, Padre Paulo. A prostituta barrada na porta da igreja. 2019. Disponível em < https://padrepauloricardo.org/blog/a-prostituta-barrada-na-porta-da-igreja>. Acesso em 07.01.2026.

 

SHALOM. Santa Maria Egipcíaca. 2010. Disponível em <https://comshalom.org/santa-maria-egipciaca/>. Acesso em 08.01.2026.

 

SILVA, Irmã Ana Maria H. Francisco Irmão Menor. Disponível em <https://ihu.unisinos.br/618055-a-vida-espiritual-dos-misticos-um-caminho-para-nao-sucumbir-a-ansiedade>. Acesso em 07.01.2026.

 

SILVA, Natal. O temor a Deus. Disponível em <https://santuario.cancaonova.com/formacao/o-temor-deus/>. Acesso em 08.01.2026.

 



[1] https://www.letras.mus.br/pe-fabio-de-melo/1193923/

[2]et frater corpus, in oratione et vigiliis et aliis bonis operibus anime vellet esse pigrum, negligens vel somnolentum, quod ipsum castigare debet tamquam malum et pigrum armentum, quia vult comedere et non vult lucrari, nec honus portare” (e o irmão corpo, na oração, nas vigílias e em outras obras boas da alma quiser ser preguiçoso, negligente e sonolento, deve castigá-lo como um animal mau e preguiçoso, porque quer comer e não produzir nem carregar a carga) – FONTE: https://www.capuchinhosrs.org.br/cboeste/franciscanismo/fontes-biograficas/legenda-perusina/96-irmao-corpo.

 

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